Época da faculdade. Finaleira de graduação. Virada do ano 2000. As boy bands ocupam 150% do tempo da nossa MTV. A nossa MTV. De nós rockeiros. De nós alternativos. O que é que esses boys bonitinhos estão fazendo estragando a nossa emissora? E porque as bandas que amávamos estão
tentando soar como eles?
Nesse cenário musical desolador fui encarar meu último ano como graduando de Letras Português-Inglês, e já havia na minha cabeça de compositor de músicas da Aberdeen alguma intenção de colocar uns eletrônicos no som. Não era uma intenção de imitar o Bush do Science of Things, ou o Freaks of Nature do Drain STH.. mas se a minha banda quisesse sobreviver ou ser diferenciada nesse cenário alarmante para o rock que pintamos anteriormente, talvez fosse mesmo hora de investir em algumas coisas arriscadas. Só que apenas minha paixão pelo Paradise Lost da época One Second não me daria subsídios composicionais para tal. Era preciso cavar um pouco mais fundo. Mas tinha um problema: a falta de tecnologia da época não nos dava o acesso instantâneo ao que nos faltasse.
Eis que um professor da FURG chamado Tacel Leal (ao qual sou muito grato) adentra a sala de aula para ministrar alguma das literaturas - inglesa ou americana - no meu quarto ano, e em alguma dessas caronas filadas da vida, a gente fala sobre som. Ele me diz que curte eletrônico, e eu digo que necessito ampliar minha bagagem nesse tipo de som. Ele pergunta algumas coisas, e dada minha predileção pelo lado negro da força, ele conclui que eu precisava ouvir algo mais na vibe trip hop, e que a banda que eu deveria - ou melhor - o álbum que eu deveria ouvir se chamava Mezzanine (1998), de uma banda inglesa chamada Massive Attack.
Não fazia muito que tinha dado na MTV um programa chamado "Alto e Bom Som", que passava 30 minutos de algum show. E era um show do Massive Attack da turnê desse Mezzanine. Tentei ver, mas não fui muito adiante. Não achei horrível. Apenas não era pra mim. Até memorizei alguns títulos de músicas, mas nem dei maior importância. Aí o hoje Dr. Tacel falou nesses caras de novo e eu fiquei até certo ponto animado, visto que eu já tinha tido uma mini-dose desse show deles e não tinha odiado. Então fui encarar esse disco sabendo que eu precisaria me reinventar como ouvinte de música para tentar entrar na viagem.
Evidentemente que não foi na primeira ouvida que eu passei a achar esse álbum o quinto melhor disco de todos os tempos, mas eu definitivamente fiquei surpreso com o quanto ele tinha de peso. Não guitarra pesada. Ambiência pesada! Uma profundidade e uma sensualidade que me deixava até meio desconfortável. Fora o fato de que sempre havia uma coisa nova a ser descoberta. A gente diz isso para álbuns progressivos, trabalhados, cheios de camadas, mas nesse disco aqui essas descobertas são realmente múltiplas. Aparentemente, as músicas são meio camaleônicas.. Dependendo do teu humor, algumas nuances são acentuadas e outras diminuídas.
Em seguida, então, algumas dessas faixas se tornaram grandes clássicos pessoais: desde as "corriqueiras" Angel (Verdades Secretas, galera) e Teardrop, passando por Risingson e Inertia Creeps, até a faixa-título, mais Group Four e Dissolved Girl. A gente entende que esse disco é especial quando ouve todo tipo de trip hop e percebe que nada de outra banda te tira da zona de conforto como esses caras fazem. Há bandas bem legais de trip hop, que a gente conhece depois, mas o Massive Attack, em especial nesse disco aqui, é uma coisa mais que monstruosa que arrebata e realmente tem a viagem (trip) mais densa e profunda musicalmente que você vai ter na vida, caso se permita. Isso que eu nem mencionei o quanto esse álbum emana elegância e finesse em cada milésimo de segundo, mas acho que se confunde um pouco com o aspecto sensual, o qual eu já havia citado.
A partir daí, consegui desenvolver um raciocínio mais coerente como compositor, adotando realmente um pouco de coisas eletrônicas para a Aberdeen, mas já imerso nesse contexto mais viajandão e obscuro, o que fez sentido. A gente não emplacou hits ou ficou famoso, mas fez, até aqui, dois discos dos quais gostamos e temos orgulho. Fiz até um projeto de música eletrônica (esse blog foi criado para divulgar o sétimo disco desse projeto) que visava copiar o Massive Attack, mas acabou indo para um rumo todo único, cheio de identidade - o que me deixou ainda mais feliz.
O Massive Attack fez outros dois álbuns depois do Mezzanine. Um deles maravilhoso (100th Window, 2003), que talvez seja até mais louco que o Mezzanine, mas em termos de equilíbrio e homogeneidade, o registro de 1998 acaba sendo um pouco superior; porém, recomendo sem pestanejar qualquer um desses dois. Eles têm o poder de mudar vidas.
tentando soar como eles?
Nesse cenário musical desolador fui encarar meu último ano como graduando de Letras Português-Inglês, e já havia na minha cabeça de compositor de músicas da Aberdeen alguma intenção de colocar uns eletrônicos no som. Não era uma intenção de imitar o Bush do Science of Things, ou o Freaks of Nature do Drain STH.. mas se a minha banda quisesse sobreviver ou ser diferenciada nesse cenário alarmante para o rock que pintamos anteriormente, talvez fosse mesmo hora de investir em algumas coisas arriscadas. Só que apenas minha paixão pelo Paradise Lost da época One Second não me daria subsídios composicionais para tal. Era preciso cavar um pouco mais fundo. Mas tinha um problema: a falta de tecnologia da época não nos dava o acesso instantâneo ao que nos faltasse.
Eis que um professor da FURG chamado Tacel Leal (ao qual sou muito grato) adentra a sala de aula para ministrar alguma das literaturas - inglesa ou americana - no meu quarto ano, e em alguma dessas caronas filadas da vida, a gente fala sobre som. Ele me diz que curte eletrônico, e eu digo que necessito ampliar minha bagagem nesse tipo de som. Ele pergunta algumas coisas, e dada minha predileção pelo lado negro da força, ele conclui que eu precisava ouvir algo mais na vibe trip hop, e que a banda que eu deveria - ou melhor - o álbum que eu deveria ouvir se chamava Mezzanine (1998), de uma banda inglesa chamada Massive Attack.
Não fazia muito que tinha dado na MTV um programa chamado "Alto e Bom Som", que passava 30 minutos de algum show. E era um show do Massive Attack da turnê desse Mezzanine. Tentei ver, mas não fui muito adiante. Não achei horrível. Apenas não era pra mim. Até memorizei alguns títulos de músicas, mas nem dei maior importância. Aí o hoje Dr. Tacel falou nesses caras de novo e eu fiquei até certo ponto animado, visto que eu já tinha tido uma mini-dose desse show deles e não tinha odiado. Então fui encarar esse disco sabendo que eu precisaria me reinventar como ouvinte de música para tentar entrar na viagem.
Evidentemente que não foi na primeira ouvida que eu passei a achar esse álbum o quinto melhor disco de todos os tempos, mas eu definitivamente fiquei surpreso com o quanto ele tinha de peso. Não guitarra pesada. Ambiência pesada! Uma profundidade e uma sensualidade que me deixava até meio desconfortável. Fora o fato de que sempre havia uma coisa nova a ser descoberta. A gente diz isso para álbuns progressivos, trabalhados, cheios de camadas, mas nesse disco aqui essas descobertas são realmente múltiplas. Aparentemente, as músicas são meio camaleônicas.. Dependendo do teu humor, algumas nuances são acentuadas e outras diminuídas.
Em seguida, então, algumas dessas faixas se tornaram grandes clássicos pessoais: desde as "corriqueiras" Angel (Verdades Secretas, galera) e Teardrop, passando por Risingson e Inertia Creeps, até a faixa-título, mais Group Four e Dissolved Girl. A gente entende que esse disco é especial quando ouve todo tipo de trip hop e percebe que nada de outra banda te tira da zona de conforto como esses caras fazem. Há bandas bem legais de trip hop, que a gente conhece depois, mas o Massive Attack, em especial nesse disco aqui, é uma coisa mais que monstruosa que arrebata e realmente tem a viagem (trip) mais densa e profunda musicalmente que você vai ter na vida, caso se permita. Isso que eu nem mencionei o quanto esse álbum emana elegância e finesse em cada milésimo de segundo, mas acho que se confunde um pouco com o aspecto sensual, o qual eu já havia citado.
A partir daí, consegui desenvolver um raciocínio mais coerente como compositor, adotando realmente um pouco de coisas eletrônicas para a Aberdeen, mas já imerso nesse contexto mais viajandão e obscuro, o que fez sentido. A gente não emplacou hits ou ficou famoso, mas fez, até aqui, dois discos dos quais gostamos e temos orgulho. Fiz até um projeto de música eletrônica (esse blog foi criado para divulgar o sétimo disco desse projeto) que visava copiar o Massive Attack, mas acabou indo para um rumo todo único, cheio de identidade - o que me deixou ainda mais feliz.
O Massive Attack fez outros dois álbuns depois do Mezzanine. Um deles maravilhoso (100th Window, 2003), que talvez seja até mais louco que o Mezzanine, mas em termos de equilíbrio e homogeneidade, o registro de 1998 acaba sendo um pouco superior; porém, recomendo sem pestanejar qualquer um desses dois. Eles têm o poder de mudar vidas.
Ah! E conversem com seus professores sobre música!
Abraços o/

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