Time Wasters

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Top 10 Discos Pessoais: 5a Posição




Época da faculdade. Finaleira de graduação. Virada do ano 2000. As boy bands ocupam 150% do tempo da nossa MTV. A nossa MTV. De nós rockeiros. De nós alternativos. O que é que esses boys bonitinhos estão fazendo estragando a nossa emissora? E porque as bandas que amávamos estão
tentando soar como eles?

Nesse cenário musical desolador fui encarar meu último ano como graduando de Letras Português-Inglês, e já havia na minha cabeça de compositor de músicas da Aberdeen alguma intenção de colocar uns eletrônicos no som. Não era uma intenção de imitar o Bush do Science of Things, ou o Freaks of Nature do Drain STH.. mas se a minha banda quisesse sobreviver ou ser diferenciada nesse cenário alarmante para o rock que pintamos anteriormente, talvez fosse mesmo hora de investir em algumas coisas arriscadas. Só que apenas minha paixão pelo Paradise Lost da época One Second não me daria subsídios composicionais para tal. Era preciso cavar um pouco mais fundo. Mas tinha um problema: a falta de tecnologia da época não nos dava o acesso instantâneo ao que nos faltasse.

Eis que um professor da FURG chamado Tacel Leal (ao qual sou muito grato) adentra a sala de aula para ministrar alguma das literaturas - inglesa ou americana - no meu quarto ano, e em alguma dessas caronas filadas da vida, a gente fala sobre som. Ele me diz que curte eletrônico, e eu digo que necessito ampliar minha bagagem nesse tipo de som. Ele pergunta algumas coisas, e dada minha predileção pelo lado negro da força, ele conclui que eu precisava ouvir algo mais na vibe trip hop, e que a banda que eu deveria - ou melhor - o álbum que eu deveria ouvir se chamava Mezzanine (1998), de uma banda inglesa chamada Massive Attack.

Não fazia muito que tinha dado na MTV um programa chamado "Alto e Bom Som", que passava 30 minutos de algum show. E era um show do Massive Attack da turnê desse Mezzanine. Tentei ver, mas não fui muito adiante. Não achei horrível. Apenas não era pra mim. Até memorizei alguns títulos de músicas, mas nem dei maior importância. Aí o hoje Dr. Tacel falou nesses caras de novo e eu fiquei até certo ponto animado, visto que eu já tinha tido uma mini-dose desse show deles e não tinha odiado. Então fui encarar esse disco sabendo que eu precisaria me reinventar como ouvinte de música para tentar entrar na viagem.

Evidentemente que não foi na primeira ouvida que eu passei a achar esse álbum o quinto melhor disco de todos os tempos, mas eu definitivamente fiquei surpreso com o quanto ele tinha de peso. Não guitarra pesada. Ambiência pesada! Uma profundidade e uma sensualidade que me deixava até meio desconfortável. Fora o fato de que sempre havia uma coisa nova a ser descoberta. A gente diz isso para álbuns progressivos, trabalhados, cheios de camadas, mas nesse disco aqui essas descobertas são realmente múltiplas. Aparentemente, as músicas são meio camaleônicas.. Dependendo do teu humor, algumas nuances são acentuadas e outras diminuídas.

Em seguida, então, algumas dessas faixas se tornaram grandes clássicos pessoais: desde as "corriqueiras" Angel (Verdades Secretas, galera) e Teardrop, passando por Risingson e Inertia Creeps, até a faixa-título, mais Group Four e Dissolved Girl. A gente entende que esse disco é especial quando ouve todo tipo de trip hop e percebe que nada de outra banda te tira da zona de conforto como esses caras fazem. Há bandas bem legais de trip hop, que a gente conhece depois, mas o Massive Attack, em especial nesse disco aqui, é uma coisa mais que monstruosa que arrebata e realmente tem a viagem (trip) mais densa e profunda musicalmente que você vai ter na vida, caso se permita. Isso que eu nem mencionei o quanto esse álbum emana elegância e finesse em cada milésimo de segundo, mas acho que se confunde um pouco com o aspecto sensual, o qual eu já havia citado.

A partir daí, consegui desenvolver um raciocínio mais coerente como compositor, adotando realmente um pouco de coisas eletrônicas para a Aberdeen, mas já imerso nesse contexto mais viajandão e obscuro, o que fez sentido. A gente não emplacou hits ou ficou famoso, mas fez, até aqui, dois discos dos quais gostamos e temos orgulho. Fiz até um projeto de música eletrônica (esse blog foi criado para divulgar o sétimo disco desse projeto) que visava copiar o Massive Attack, mas acabou indo para um rumo todo único, cheio de identidade - o que me deixou ainda mais feliz.

O Massive Attack fez outros dois álbuns depois do Mezzanine. Um deles maravilhoso (100th Window, 2003), que talvez seja até mais louco que o Mezzanine, mas em termos de equilíbrio e homogeneidade, o registro de 1998 acaba sendo um pouco superior; porém, recomendo sem pestanejar qualquer um desses dois. Eles têm o poder de mudar vidas. 

Ah! E conversem com seus professores sobre música! 
Abraços o/

sábado, 15 de dezembro de 2018

Escolhas 2018

Voltarei a fazer meu top 10 de discos favoritos de todos os tempos (essa lista deve ficar pronta na semana que vem). Mas agora é hora de interromper essa sequência para teclar sobre meu costumeiro 'melhores do ano'. 2018 foi um ano em que a gente como brasileiro ficou bastante envolvido com questões não-musicais. Um ano em que as lojas de CD fecharam, e que a arte passou de algo de segundo plano para algo ínfimo na vida das pessoas. Nós aqui continuamos a carregar essa bandeira, e dela nunca abriremos mão.

12 Dave Matthews Band - Come Tomorrow -> Desde o Groogrux King de 2009 a DMB segue fazendo um som na mesma direção, então são já três álbuns de estúdio consolidados em uma identidade interessante (um pouco menos interessante que no início de carreira a meu ver), e que ainda gera discos muito bons.

11 Metal Church - Damned If You Do -> Quase sempre ponho as mesmas bandas de metal nas minhas listas, e geralmente são bandas com uma identidade sonora estabelecida, mas que ora fazem discos mais seguros, ora fazem discos mais gostosamente aventureiros, como foi o caso desse aqui.

10 Lordi - Sexorcism -> Outra banda que já teve um ápice criativo nos três primeiros álbuns, sofreu um pouco com as trocas de formação, mas que há uns 2 ou 3 álbuns encontrou uma sonoridade e uma consistência composicional que me agrada e me mantem interessado.

09 Sevendust - All I See Is War -> Precisa ouvir um alternative interessante, com excelentes músicos e que saibam fazer um peso pesado melódico? Há algumas boas opções por aí: as mais notáveis são Stone Sour e Sevendust. Nesse álbum aqui (o 12o de estúdio deles), a banda ousou um pouco mais, e conseguiu um resultado bem refrescante musicalmente.

08 Hoobastank - Push Pull -> Eles foram prum rumo mais pop, mas eles mantiveram tudo físico, interessante e com composições sólidas, de forma geral. O vocal do Douglas Robb parece que só melhora com o tempo, e essa sofisticadinha que a banda deu no som os deixou mais versáteis.

07 Smile Empty Soul - Oblivion -> Essa banda sempre esteve perto de entrar nos meus tops do ano, mas se alguma vez entrou foi em uma posição mais discreta. Eu tinha meio que esquecido deles, mas os reencontrei sem querer numa busca aleatória. Ouvi esse disco novo, e eles continuam sombrios e diretos, com uma fusão legal de Linkin Park e Seether. Merecem uma verificada, pois é uma carreira consistente.

06 Amorphis - Queen Of Time -> No álbum anterior o Amorphis tinha dado um upgrade interessante na complexidade e intrincância do seu som. Aqui isso foi exponenciado ainda mais e repercutiu muito, muito bem na comunidade do metal. Para mim, o álbum ficou com realmente bastante informação para assimilar, o que é ótimo por um lado, mas sinto saudades das coisas mais catchy deles. De toda forma, eles seguem únicos e bem à frente do seu tempo.

05 Lenny Kravitz - Raise Vibration -> Um hitmaker consagrado, Lenny Kravitz vem, nos seus últimos registros, desenvolvendo a arte de fazer álbuns coesos e sem quase músicas "pra completar o álbum". Mesmo ele não tendo emplacado hits gigantescos ultimamente, ele segue sabendo como fazer um som carismático e honesto. Nesse álbum, ele realmente nem quis saber de emplacar hit, tendo até umas divertidas faixas com mais de sete minutos de duração e que foram trabalhadas pela gravadora.

04 Alice in Chains - Rainier Fog -> disco mais que correto e muito bem vindo do Chains. Gostei desse um pouco menos do que o impecável anterior, mas ainda é bom para caramba e segue sendo pesado, melancólico e com esses vocais que amamos tanto. Cantrell sem nenhuma preguiça como guitarrista evoluindo nos solos e riffs, porém um pouco mais aventureiro na composição, o que nem sempre representa grandes acertos.

03 Stone Temple Pilots - Stone Temple Pilots 2018 -> Que lindeza ver o STP com seu terceiro vocalista mantendo-se motivado para fazer boa arte e com o tanque cheio de boas coisas para oferecer. O vocalista novo, Jeff Gutt, além de ter traços perceptíveis do vocal do falecido Scott Weiland, ainda tem o plus de ser mais consistente do que o ídolo quando em shows ao vivo. Mas o trio Eric, Rob e Dean é que realmente rouba a cena com composições lindas, orgânicas, variadas e com essa estranheza cativante que lhes é típica.

02 Black Stone Cherry - Family Tree -> Esses caras são bons demais. Não são muito consistentes, mas cara, como são bons! O lance é que eles fazem o que eles querem, então em certos momentos o produtor poderia dar uma pressionada, do tipo... "calma aí, isso pode ficar de fora". Num disco focado como esse, e com a maturidade desenvolvida com a estrada, os caras fizeram um disco muito perfeito, que é muito cativante e com um pique ótimo.

01
Aberdeen - Homeless -> "Like the drooping flower / I begin to sag thirsty for some water / Like the drying flower / I begin to crumble under your distant touch / Like the dying flower / I begin to darken and depart from your world." (F.D.H.)

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Top 10 Discos Pessoais - 6a Posição


Hermanos e hermanas, sei que houve uma baita demora para eu seguir a brincadeira e tal. Eu tive o tempo, não estou morrendo de ocupado, mas como tô de saída do facebook não priorizei fazer os textos. Peço desculpa caso alguém estivesse ansiando por isso aqui - o que é pouco provável - mas enfim... hoje estou numa vibe de escrever sobre música, então calhou de tocar o barco adiante.

Na verdade, o Paradise Lost fez (e digo isso sem muito cálculo ou reflexão) pelo menos 4 dos meus 10 álbuns de metal favoritos. E esse Draconian Times é o meu all-time álbum favorito de heavy metal. Ainda dá para incluir o Symbol Of Life, o Gothic e o Icon nesse suposto top dez. O One Second e o Host também são álbuns bem fortes, mas eu já ponho eles numa diferente gaveta musical. Tenho gostado muito do In Requiem ultimamente, mas não a ponto de achá-lo revolucionariamente bom (ainda).

O lance com o Paradise Lost foi meio cronológico, na verdade: eu ouvi a banda na época aquela em que eu estava total absorto pelo Blessed Are The Sick do Morbid Angel e só queria saber de extremidade e vocalista vomitando coisa e baterista blasteando até sangrar. Então, mesmo com toda a boa vontade do Ricardinho da Zone Off me apresentando o Icon (quarto álbum), eu na época achei muito clone de Metallica Black Album e não era o que eu queria escutar. Então arquivei.

Na época que eu saí de casa, eu morei no Cassino com um pessoal que curtia bastante som extremo e também doom metal da raiz. Lá eu passei a ouvir quase que diariamente os dois primeiros do Paradise Lost e gostar muito deles - o acima mencionado Gothic sendo o segundo álbum. Combinava bem com o inverno do Cassino! Tendo gostado desses dois, eu já quis ouvir o Shades of God, terceiro disco. Ali eu notei que era um álbum de transição para o que eu lembrava do Icon. Eu curti o Shades. Não loucamente, mas foi bom. Então já fiquei, digamos, pronto para receber o Icon.

Bem na época que eu ia largar uma fita cassette pro Ricardinho me gravar o Icon, saiu o Draconian Times, o qual eu priorizei, deixando o Icon para depois. Encarei o álbum com a mente aberta, sabendo que não seria doom metal. Ouvi parte dele no apê do Ricardinho e parecia que seria bem bom. Eu já tinha aprendido que o guitarrista Gregor Mackintosh era o grande fator diferencial dessa banda, com suas intervenções lindas de guitarra solo por sobre a base sólida e pesada como chumbo do Aaron Aedy. Então, ao invés de focar no vocal do Nick Holmes, como eu tinha feito ao ouvir o Icon na primeira vez, dessa vez eu, já sabendo como proceder corretamente, foquei nas guitarras do Gregor. Porra, cara. O Gregor Mackintosh, nesse Draconian Times, simplesmente teve a melhor performance que eu já ouvi de um guitarra solo: intervenções melódicas incrivelmente carismáticas e com aquele senso meio a la Marty Friedman de sempre preencher a música com a coisa certa, na intensidade certa, no volume e timbre certos. A diferença é que o Marty é mais virtuosão e menos melancólico no approach. O Gregor soa mais sensível e melancólico, e seus arranjos nesses primeiros álbuns do Paradise Lost são de uma beleza simplesmente inigualável.

O Nick Holmes também estava soando muito bem nos vocais. Li numa Brigade que eles tentaram takes de uma mesma estrofe por três horas seguidas. Então parabéns a ele por perseverar e entregar uma performance irrepreensível. No Draconian Times, o Paradise Lost estava com um baterista novo. O Matt Archer era um bom batera para doom metal: durão e pesado. Mas aqui, com o Lee Morris o nível subiu absurdamente: ele é extremamente requintado e muito criativo. Um dos melhores e mais subestimados aí da metaleirada toda, provavelmente o grande co-responsável pelo Symbol Of Life ser também um dos melhores discos de metal ever. No fim das contas é até bom que o Lee passe batido, visto que eu sou muito influenciado por ele no meu trabalho com a Aberdeen... pode ser que eu perca minha reputação de músico criativo, caso geral decida prestar atenção no Lee! (zoeira)

The Last Time, o single do disco, demorou para me agradar. Porque ela é simples demais e muito, muito catchy com aquele refrão só no "Hearts Beating" e aquela guitarra do Gregor fazendo uma nota só. Mas né, ela era na verdade uma faixa de transição para a fase vindoura do One Second e do Host, e a gente só entende isso anos depois. De toda forma, tornou-se (com mais ouvidas) uma tremenda duma música com um péssimo clipe e... porra... o Paradise Lost sempre faz o que quer fazer, dificultando a vida do seu fã mais conservador.

Enfim, mesmo tendo lutado com a Last Time, já havia muitos e muitos motivos para se embasbacar: Forever Failure, Enchantment, Shadowkings, Jaded, Yearn For Change, Hallowed Land... tchê... esse disco podia ser facinho um greatest hits das melhores músicas de heavy metal de todos os tempos e não ficaria faltando muito material, honestamente.

O que dizer de um álbum assim? O jeito é recomendá-lo a quem não deu a ele muitas chances e torcer para seja atingido como eu e muitos outros fãs de um bom metal. Ah, mas é um disco depressivo/arrastado? O pior é que não é isso: é um álbum muito enérgico (revigorante mesmo) e dotado de uma beleza guitarrística que jamais, jamaaaais será igualada. Quem gosta de guitarra bonita composta com muita finesse e feeling está convidado a mergulhar nesse álbum aqui.

E essa arte também é das mais bonitas que existe. É inegável.

Forte abraço, geral!

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Top 10 Discos Pessoais - 7a Posição


É chegado o dia do rock! Uma boa desculpa para escrever sobre o sétimo filho do sétimo filho aqui no blog. Por sinal, esse blog tem uns textos muito afudê sobre o último disco do Musique (Lights And Shades), que é o melhor de todos os sete álbuns que essa entidade lançou - aqui com mais influência de Rob Zombie e Rammstein, mas dentro do pop e urbano que o Musique sempre foi. O que isso significa? Que você está convidado a ler os textos... e mais ainda: a ouvir esse álbum, que é daqueles raros casos em que o compositor não mexeria em nada após pronto. Realmente ficou melhor do que qualquer expectativa minha e soa muito, muito bem.

Bom, conforme eu dissera no post do Ten, no início dos 90's eu tava realmente imergindo com força no metal mais pesado que você pode imaginar. Iniciei aos poucos com os velhos do Metallica, depois com os Sepultura ali da virada da década e aí, após o Beneath The Remains, peguei grande gosto pela coisa. O Marcio da Crucifixion e o Ricardinho da Zone Off me lançaram mais uma série de coisas legais, tipo Obituary e Benediction, mesclados ao bom e velho thrash, como Kreator, Slayer e Possessed. 

Numa dessas andanças, o Moisés Batera me botou na mão duas fitas cassette contendo nelas os dois primeiros do Morbid Angel: o Altars of Madness, que ele disse que era excelente, e o Blessed Are The Sick, que ele falou que também era bem bom, mas menos que o Altars.

Eu coloquei o Altars primeiro e achei que nunca mais na vida ia tirar aquele cassette do som ou parar de ouvir. Simplesmente maravilhoso death/thrash com boa ambiência, apesar da velocidade constante. Composições realmente acima da média e com um fantástico repeat value. Coisa catchy mesmo. Já era digno de dizer que tinha mudado a vida desta pessoa.

Só que aí eu coloquei o Blessed Are The Sick para rolar, acho que uns dois ou três dias depois... e acho que eu levei uns dois meses para conseguir fechar a boca, tamanho o apavoramento que essa obra prima me causou. Ele é um pouco mais cadenciado do que o Altars, mas obviamente extremo. A atmosfera e a identidade da coisa tinham sido exponenciadas a limites musicais que eu não achei que fossem possíveis. E é um álbum de 1991, saca? Ainda tem o charminho de ter coisas erradas aqui e ali, com aquela raça peculiar das bandas embrionárias do estilo. Esse disco traz algumas músicas novas e outras que foram reaproveitadas do início de carreira, dando uma boa dinâmica ao disco, tendo sido re-roupadas e adequadas ao contexto novo.

Então. A atmosfera: obviamente que um álbum de death metal vai ter uma atmosfera satânica, e tudo o mais. Mas aqui o Morbid estava indo prum rumo diferente na competição: é uma coisa mais sensual, como se fosse uma visão meio "romantizada" da coisa. A pancada está lá, mas há aquela névoa por sobre. Em uma resenha do metal archives, li que o álbum é "fleshy", o que numa tradução meio tosca seria algo próximo de "carnal". É uma vibe poética de pecado, não de matança e carnificina.

Em termos de composições, obviamente eu sou fã de tudo no álbum, mas há que se destacar a inteligência no uso dos extremismos. Eles aparecem aqui e ali. Há um bom uso de partes mais lentas. Os solos são mais contidos e táticos, se comparados ao Altars que é total Slayerismo-alavanca. Há umas partes com flauta, e uma linda música de violão chamada Desolate Ways. Enfim, o álbum é muito, muito mais do que mais um disco de metal extremo. Ele totalmente redefiniu como abordar a extremidade, dando ao metal e à arte incríveis horizontes novos.

Como baterista, é sempre importante mencionar que o Pete Sandoval, do Morbid Angel é um dos maiores inovadores da história do metal. Ele simplesmente nunca faz o óbvio e tem uma elegância e um groove, que é imitado por 98% dos bateras do estilo até hoje. É tipo o Bonham do death metal. Sem exagero.

Tá aí. Um disco excelente para quem tem a mente aberta e, mesmo que hoje em dia pareça um pouco datado - especialmente em termos de produção - segue sendo o melhor álbum de metal extremo de todos os tempos, posição que dificilmente lhe será retirada, especialmente por conta do pioneirismo e ousadia, coisas que não são mais incentivadas na arte moderna.

Abençoados são os que leram até o fim e me deram aquele feedback maroto. Nos vemos.

terça-feira, 10 de julho de 2018

Top 10 Discos Pessoais - 8a Posição


Meu oitavo álbum favorito aqui listado é um disco bastante inusitado e representa bem o porquê de eu ser um levantador assíduo da bandeira do alternative. De novo: não é panfletarismo. É só um gosto pessoal.

Betty é o terceiro disco do Helmet. É de 1994. Um disco que nem precisaria da minha vã tentativa de venda: veja essa menina inocente e essa capa coloridinha meiga. O nome da banda é capacete, cara. Antes era Purple Helmet, mas a gravadora sacou a piada a tempo. O nome do disco é Bete. Tipo Elizabete mesmo. Talvez seja mesmo uma gíria para "menina gata", mas até aí você está longe de ter um álbum de rock perigoso em mãos.

O primeiro álbum do Helmet, o Strap It On, era mais na linha pós-hardcore, pré-Glassjaw e Silverstein, meio na época da Rollins Band e do Slint. Bom para caráleo, como todos (TO-DOS) os discos do Helmet, mas embrionário ainda e, mesmo tendo lá sua originalidade, ainda não tinha aquele elemento que fizesse desse Helmet uma banda realmente a frente de seu tempo.

O segundo do Helmet sim. A porra do Meantime. Esse disco é tão fodido do caralho que o cara se obriga a encher o post de palavrão para tentar dar cabo da cavalice da coisa. É uma banda que tá até no metal archives, entende? O público adepto do metal entende que o Helmet é metal! Realmente tem elementos de 90's metal, inclusive o Helmet é um dos maiores influenciadores do que se convencionou chamar de 90's metal. Mas pra mim é alternative, cara. Lembra quando eu disse que eu entendia que para ser alternative tinha que soar meio Nirvana? Então, o orgasmo sonoro da coisa é a la In Utero ou Nevermind, mas a musicalidade aqui é bem melhor, a composição é focada (deboche & sarcasmo all over, mas o foco é inegável) e o peso é realmente algo que não dá opção: tem que chamar de metal mesmo - caso isso seja, de fato, sinônimo de som pesado.

O sucesso do Nirvana tem, obviamente, "culpa" do Helmet ter se tornado mainstream nessa época, mas lembra: a banda não era um mero alternativezinho. Era metal. Metal é sinônimo de musicalidade avançada. E isso temos em Betty. Alternative para o Rick em 94/95 ainda era, obrigatoriamente, sinônimo de barulho, peso e nirvanice. E isso temos em Betty. Hoje, pra mim ele ainda é um álbum de alternative, mas agora pelas razões certas.

Pois então. O Betty é um álbum com riffs geralmente com o bordão afinado um tom abaixo... aquela coisa toda que facilitou para que músicos fracos como eu pudessem escrever riffs para a Aberdeen. Mas o Helmet é uma banda muito, muito técnica. Ah, o vocal do cara. É... o vocal do cara é uma parada meio Bob Dylan, no fim das contas. Mas nessa época eu tava curtindo o Hetfield, o Mustaine, o Cavalera, o Ozzy, e nenhum deles é exatamente o Bruce Dickinson ou o Michael Kiske. Eu gosto do vocal desses caras todos, e do Page Hamilton (Helmet) também. Acho que ele sabia criar caos e fazer melodias com um correto balanço entre as grandezas... distribuindo bem as abordagens. E ele é um grande entertainer na arte dos encaixes silabares. Divertido mesmo.

Wilma's Rainbow, I Know, Milquetoast. Esse álbum tem uns arrasta-quarteirão que não há como ser mais impactuoso que isso. Eu já fui em um monte de show. Já vi produções tops, já vi bandas pesadas... mas o melhor show que eu já fui nessa vida foi o do Helmetzinho ali no Beco de Porto Alegre. Simplesmente porque essa banda é uma usina impiedosa de peso e grooves devastadores.

O Helmet insere ainda umas coisas de jazz, de blues, de acordes abertos. Isso tudo soma pontos nos quesitos originalidade e criatividade. Mas o que mais me seduz neles é a combinação de riffs & bateras. Eles têm coisas rítmicas muito engenhosas tipo em Rollo, Clean e Street Crab, mas não é Meshuggah. É bem mais fluído e natural. É quebrado, mas soa como se não fosse. Inclusive foi exatamente o que o Vinícius Möller disse sobre a faixa Disgraceful Inside, do disco Homeless, da Aberdeen (foi o Möller, hein, gurizada! O melhor tecladista desse país elogiou nosso álbum)!

A "militaridade ríffica" do Helmet, que foi o que conquistou o gosto das massas na época do Meantime, aparece (nesse Betty) especialmente nos clássicos Speechless e Tic. Mas o Betty é bem mais amplo que o álbum anterior musicalmente, e tem uma produção que é simplesmente maravilhosa - que soa muito bem aos meus (meus!) ouvidos. Sei muitos exemplos de bandas grandes que tentaram emular esse som aqui e simplesmente não encaixou.

Enfim. É um álbum muitíssimo bem composto, com essa espécie de "desleixo" - aqui oriundo de muito conhecimento e critério (que se encaixava bem na estética daquele momento), cujo uso não foi capaz de afugentar os ouvintes atentos que procuravam música boa e pesada: os de metal.

Simplesmente do ca(pa)cete!

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Top 10 Discos Pessoais - 9a Posição



Amigos, transeuntes virtuais e desafetos não declarados: meu nome é Rick Soares, faço o 3 Gerações na FurgFM aos sábados e terças e iniciei minha lista de top 10 favoritos há uns dias. Sobre esse meu nono colocado, eu sinto que preciso picturizar um pouco o momento de minha vida em que ele chegou, então permitam-me fazer o devido flashback:

Dos anos 92 a 95 eu estava bem inserido no metal. No mais pesado metal possível. 1995 já tinha sido um ano com algumas estranhezas sonoras - com o Kreator tendo feito o Cause for Conflict, e o Forbidden tendo lançado o Distortion, colocando a música industrial nos rumos do metal... até o Machine Head chegar e tomar tudo de assalto com o Burn My Eyes. Porém 96 e 97 foram anos cheios de transição, com o Load, do Metallica tendo sido aprovado por mim - aquele álbum é assumidamente alternative - e mais tarde com o Paradise Lost lançando o One Second, que me fez rumar ao eletrônico aos poucos, bem como perder o medo do pós-punks e dos rocks góticos dos 80.

Nesses anos de 96 e 97 eu estava rumando para o lado tradicional do metal, antes de ouvir o Load e o One Second. Sendo um adolescente desinformado e estando inserido no lado mais tradicional do metal, você pode acabar ficando um pouco mais confuso sobre o que é um bom músico: você abre a revista e o Yngwie Malmsteen diz que os caras do Pearl Jam são músicos e compositores péssimos; o que você acaba aceitando. Eu nunca havia ouvido uma faixa inteira do Pearl Jam e, obviamente, não estava interessado nesse estilo de música. Daí o Metallica lançou o Load e esse álbum me balançou de um jeito estranho: eu sentia que não era o Metallica quem estava, de fato, me movendo, mas sim um monstro muito maior, que tinha sido o mesmo que tinha induzido o Metallica a fazer esse movimento musical. Tipo, não era o Load que era bom pra caralho (entendo que o Load seja um dos álbuns mais heterogêneos da história da indústria), mas sim o combustível que havia abastecido aquela máquina. Era nisso que eu tinha ficado genuinamente interessado... as composições novas do Metallica tinham intenções que me interessavam, mas ainda não era aquele o approach correto da coisa. Então, ao saber que o Metallica estava com um pé e meio no alternative, fui para a Katsue e aluguei um monte de cds do estilo. Com certeza, eu lembro de alugar o Down on the Upside, o Dirt e o Ten.

Bom, aí sim. Ouvi o Ten, e mesmo tendo sido uma primeira audição meio hesitante, do tipo "esse troço é fantástico, mas é muito limpinho e surfzinho", o álbum me seduziu (assim como os outros) a insistir em outras ouvidas que se tornaram milhões. A Katsue enriqueceu às minhas custas e eu me tornei um adepto bastante entusiasta do alternative. 

Não há muito o que falar do Ten que já não tenha sido dito centenas de vezes. Mas a coisa que foi engraçada era que na minha cabeça, o alternative era um troço que soaria como Nirvana, banda que eu sempre achei ok, mas nada de tão absurdo. Então quando a gente entende que o Ten é um disco de alternative que é perfeito em todas as instâncias: vocais perfeitos, guitarras lindas, composições ganchudas, batidas tão ricas e intrincadas, sonoridade viciante... então é um choque de realidade muito imenso. Você começa a entender que as revistas e as mídias podem sim estar erradas. Que o todo-poderoso Malmsteen pode dizer algo do qual você discorda.

Então, basicamente, o Ten simboliza o meu nascimento: o Rick Soares compositor de alternative e (a posteriori) de música eletrônica iniciou aqui. Tenho que agradecer ao Load por ter sido o catalizador da coisa, mas em nenhum momento eu vi genialidade nesse álbum do Metallica. Contudo havia esse algo nele que eu precisava desvendar - que estava no Ten e em muitos dos álbuns que serão listados na sequência. 

Em 97/98 eu acabei por entrar na Aberdeen, que era a minha banda favorita da cidade. Agora estamos lançando um CD novo chamado Homeless, disponível na plataforma spotify, e que tem essa ousada ambição de ser um álbum importante na vida de muitos rockeir_s. Por isso, foi feito com todo o esmero do mundo! 

10 abraços em cada um que leu até aqui o/

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Top 10 Discos Pessoais - 10a Posição

Buenas, amigos, transeuntes virtuais e desafetos não declarados: meu nome é Rick Soares, faço o 3 Gerações na FurgFM aos sábados e terças (no qual teimosamente ainda divulgo música riograndina), e o meu top dez de discos segue sendo rigorosamente o mesmo desde que eu montei uma lista para o 'Imprensa Musical em Rio Grande', no orkut. Eu tenho essa lista de top 25 de todos os tempos num bloco de notas, e as posições 11-25 ocasionalmente dão umas "cambeadas", mas o top dez por si sol (sic) vem se mantendo intacto há mais de 10 anos - e não é por falta de buscar novidades - quem checa esse blog todo mês de dezembro (que é quando escolho meus tops do ano) percebe que sigo sempre na busca pela batida perfeita. Enfim, eu topei fazer esse top 10 regressivo (do 10 até o 1) por dois motivos: a) sempre é uma honra ser lembrado e mencionado pelos artistas que fazem arte, então 'brigadão Mr. Côwsta; b) (escrever sobre música) é algo que se fazia normalmente no Imprensa Musical RG, e era tão frutífero! Agora tá todo mundo se deliciando fazendo suas listas, mas não se misturava no Imprensa sabe-se lá deus por quê (tell me what you want - what you really, really want). Não vou marcar ninguém, mas estão todos convidados. É só botar no face "eu li o 1o parágrafo do Rick e me escalei".

Essa parte de publicar textos sobre música é um troço que sempre me gera uma certa intranquilidade, porque, vejam: eu não sou um bom músico, não sou estudado, não entendo de música, ninguém gosta de ler - e pior ainda se for um texto dum zé ninguém; porém, gosto muito, significa muito, e levo mais a sério do que um certo número de pessoas. Mas, no fundo, é só mais uma pessoa a ter uma opinião. Um gosto. Nunca foi e nunca será nada panfletário, com nenhum intento impositório, até porque a graça da coisa toda é descobrir que certos álbuns (que a gente nem dá assim tanta bola) afetam pessoas.

Introduções a parte, meu décimo listado é este motherfucker de 1993 que me representa demais - e não é a toa que recebeu a camisa 10: é um álbum que abraça em suas músicas: muita atmosfera, muito peso, muita beleza, muita melancolia da boa, muito deboche, muito sarcasmo; mas nada disso valeria se não houvesse um foco absurdo no aspecto composicional. Na montagem da coisa. No fluir entre as partes e naquele 'diálogo' que dinamiza o álbum.

Um álbum tão versátil que tem umas coisas simples e perfeitas como a cavocada sensacional nas estrofes de 'Christian Woman'. O pop-chiclé metido a progressivo de 'Black Number One'. Os hardcores aqui e ali pra confundir quem não ouviu o álbum anterior. As vinhetas para confundir quem ouviu o álbum anterior. Os doom metals, que nem soam tão métal, tamanha a monstruosidade melódica, que dilacera a sustentação da frágil bateria programada. Essa profundidade atmosférica que brota de uma forma tão fácil. Esses teclados noturnos, de um outono poético e sombrio, mas que emanam uma vibe divertida de Halloween. As letras eróticas. O pieguismo sagaz. As letras de uma frase só. A forma de pronunciar certos vocábulos do gênio RIP Peter Steele. Et cetera.

Talvez o 'October Rust' (96) seja um opus mais focado overall, mas certos homens têm essa mania de estar vestindo a primeira roupa que viu e dizer "quero essa". O vendedor traz um monte de outras coisas lindas, mas você quer essa just because. Eu escolho o 'Bloody Kisses' justamente pela sua maior gama, por cobrir um pouco mais de chão, e por ter sido a pedra angular, o landmark, o coiso que germinou a inteligência no gófik mérol, mas que, dependendo do modo de vista, pode apenas ter sido um disco pop-crooner carismático com guitarras fuzzeadas.

É uma banda totalmente inimitável. É um disco totalmente insuperável. Mas que ensinou, mesmo que de forma indireta, muitas lições para esse tal Homeless, que estamos tentando divulgar e fazer ser ouvido, digerido, apreciado, compreendido e compartilhado.

Um afago no coração e beijos sangrentos!